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Melologos

Alerta doutrinário

“Conquistando o Impossível”: a fé sem objeto e o ouvinte no lugar de Cristo

“Conquistando o Impossível” — Jamily, composição de Ebenezer Cesar de Souza, Solange Cesar de Souza, MJC Music / Universal Music Publishing MGB Brasil, 2004. Letra oficial Letra completa em letras.mus.br

A palavra fé aparece seis vezes e nenhum verso diz em quem se crê. Deus age uma única vez, dando asas; o voo, a força e o valor pertencem a quem ouve, e Jesus não aparece nos 54 versos.

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Ficha de leitura

Rubrica 2.1
Foco em Cristo
nota 1/5
Por que 1 em foco em cristo

Cristo não é nomeado nem inequivocamente referido em nenhum dos 54 versos: Jesus 0, Cristo 0, Senhor 0, Cordeiro 0, Salvador 0. O centro é o ouvinte, chamado de campeão e vencedor 17 vezes. Deus aparece na linha 14 (repetida em 29, 40 e 48) como quem dá asas para o voo de quem canta. Ficha: lado de Deus 4 ocorrências, lado do ouvinte 26.

Cristologia explícita
nota 0/5
Por que 0 em cristologia explícita

A letra não faz nenhuma afirmação sobre a pessoa ou a obra de Cristo. Não há cruz, sangue, ressurreição, encarnação, mediação nem senhorio em nenhum verso. Zero ocorrências de graça, perdão, pecado e arrependimento.

Direção da adoração
nota 1/5
Por que 1 em direção da adoração

Nenhum verso é dirigido a Deus. A canção fala a um 'você' (1–4, 35–37 e todo o coro, em 'te' e 'teu') e a um 'nós' que continua sendo o sujeito da ação (5–8). O assunto são as vitórias e o valor de quem ouve: 'te faz imbatível' e 'te mostra o teu valor' (18–19) são cantados quatro vezes.

Base bíblica
nota 1/5
Por que 1 em base bíblica

As três alusões identificáveis aparecem com o sentido deslocado: as fortalezas de 2 Coríntios 10:4-5 viram obstáculos escalados (linha 10), 'o impossível' inverte Mateus 19:26 (linha 11) e as asas de Isaías 40:31, que são dadas a quem espera no Senhor, passam a sustentar o voo próprio (14–15). Além disso, as linhas 3 e 8 afirmam o contrário de João 15:5 e de Tiago 4:13-15.

Equilíbrio trinitário
nota 3/5
Por que 3 em equilíbrio trinitário

Não há matéria trinitária: 'Deus' aparece quatro vezes, sempre no mesmo verso e sem qualquer descrição. Nenhuma pessoa é nomeada, nenhuma é confundida com outra e o Espírito não é reduzido a força impessoal, porque não é mencionado. Indistinção sem erro.

Onde cabe

1/5 Para ouvir em casa

Por que 1 em onde cabe

Peça de intérprete. A letra fala a um “você”, e isso põe a igreja no papel de quem incentiva alguém enquanto canta, em vez de uma congregação falando com Deus. O refrão pede extensão e potência bem acima do que um membro comum alcança: para a igreja acompanhar sem berrar, o tom precisa descer bastante, e aí o arranjo perde o brilho que sustenta a canção. Sem a banda crescendo e sem a voz que segura as notas longas, ela esvazia — não passa no teste das duas crianças voltando de carro para casa. A favor estão a estrutura, que a igreja decora em poucos domingos, e a linguagem, acessível e sem jargão. Na forma gravada, a subida de intensidade no refrão tende a cobrir a voz da congregação.

  • O texto cabe na boca de todos? não
  • Tom e tessitura são de gente comum? não
  • Melodia e ritmo se aprendem de ouvido? em parte
  • A estrutura cabe na memória? sim
  • Sobrevive sem o intérprete e sem a banda? não
  • O estilo e a intensidade deixam a igreja se ouvir? em parte
  • A forma serve ao texto? sim
Quadrante: Ouça com discernimento Onde cabe 1 de 5; média das cinco notas 1,2 de 5. Para ouvir Para o culto Com discernimento Melhor não cantar teologicamente boa teologicamente ruim para ouvir para cantar juntos
Ouça com discernimento

A letra, verso a verso

A letra pertence a quem a escreveu, então citamos só os versos de que a análise precisa: no máximo quatro trechos curtos. Os outros versos aparecem apenas pelo número.

Para acompanhar verso a verso, abra a letra completa em outra aba: letras.mus.br. A numeração segue a ordem da letra oficial, sem contar marcações como “Coro” ou “2x”. Como citamos e como pedir retirada.

  1. 1
  2. 2

A canção abre com uma ordem — acredite — e logo dá o prazo: é hora de vencer. Nenhuma das duas linhas diz em quem se deve acreditar, nem o que significa vencer. Os dois espaços em branco continuam abertos até o último verso.

  1. Essa força vem de dentro de você
  2. Você pode até tocar o céu se crer

Aqui a letra responde de onde vem a força para vencer, e a resposta é: de dentro de quem ouve. A Escritura diz o contrário no ponto exato — Jesus afirma que sem Ele nada podemos fazer, e Paulo escreve que é Deus quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar. O verso seguinte promete tocar o céu a quem crer, e o crer continua sem alvo.

“Conquistando o Impossível” — Jamily, composição de Ebenezer Cesar de Souza, Solange Cesar de Souza, MJC Music / Universal Music Publishing MGB Brasil, 2004. Versos 3 a 4 citados para fins de análise.
  1. 5
  2. 6
  3. 7
  4. 8

A estrofe começa com realismo: ninguém nasceu com jeito pra super-herói. Duas linhas depois ela vira para o outro lado e entrega a construção dos sonhos a quem canta. Tiago trata de gente que planeja o próprio futuro e corrige a frase — 'se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo' —, e o Salmo 127 abre dizendo que sem o Senhor trabalham em vão os que edificam.

  1. É vencendo os limites
  2. Escalando as fortalezas
  3. Conquistando o impossível pela fé

O pré-coro empilha três gerúndios de esforço e fecha com o título da canção. 'Fortalezas' é a palavra de 2 Coríntios 10:4, onde as fortalezas são raciocínios levantados contra o conhecimento de Deus e caem por armas que não são carnais; na letra elas viram paredes que se escalam. E o impossível aparece de cabeça para baixo: em Mateus 19:26 o impossível aos homens é justamente aquilo que só Deus faz.

“Conquistando o Impossível” — Jamily, composição de Ebenezer Cesar de Souza, Solange Cesar de Souza, MJC Music / Universal Music Publishing MGB Brasil, 2004. Versos 9 a 11 citados para fins de análise.
  1. 12
  2. 13
  3. Deus dá asas
  4. Faz teu voo

O coro chama o ouvinte de campeão e de vencedor antes de dizer qualquer coisa sobre Deus. Quando Deus enfim entra, na linha 14, é para dar asas — a única ação divina na canção inteira —, e a linha seguinte devolve o voo a quem as recebeu. Isaías 40:31 usa a mesma imagem no sentido oposto: sobem com asas como águias os que esperam no Senhor, e a força é dEle porque o moço cansado não tem nenhuma.

“Conquistando o Impossível” — Jamily, composição de Ebenezer Cesar de Souza, Solange Cesar de Souza, MJC Music / Universal Music Publishing MGB Brasil, 2004. Versos 14 a 15 citados para fins de análise.
  1. 16
  2. 17
  3. Essa fé que te faz imbatível
  4. Te mostra o teu valor

Estas são as duas linhas que decidem o veredito. A fé aparece como garantia de invencibilidade e como medida do valor de quem crê, e a letra nunca diz em quem essa fé está depositada — uma fé que funciona como energia, e não como confiança em alguém. Hebreus 11 encerra a lista dos que creram com gente serrada e apedrejada que não recebeu a promessa em vida. E o valor do cristão, em 1 Pedro 1, é o preço que Cristo pagou por ele.

“Conquistando o Impossível” — Jamily, composição de Ebenezer Cesar de Souza, Solange Cesar de Souza, MJC Music / Universal Music Publishing MGB Brasil, 2004. Versos 18 a 19 citados para fins de análise.

20–26Versos 20 a 26

Repetição das linhas 5 a 11. Cantada de novo, a ideia de que os sonhos são construção nossa ganha o peso de quem já sabe a melodia de cor.

27–34Versos 27 a 34

Segunda vez do coro, sem mudança. Ao fim da canção, as linhas 18 e 19 terão sido cantadas quatro vezes.

  1. 35
  2. 36
  3. 37

A ponte troca a linguagem religiosa pela do esporte: recordes quebrados, barreiras ultrapassadas. São os três únicos versos novos de toda a segunda metade, e Deus não aparece em nenhum deles.

38–52Versos 38 a 52

O coro volta mais duas vezes, a última com improvisos por cima. Nada de novo entra, e o que já foi dito dobra de peso.

  1. 53
  2. 54

Vocalização de encerramento, sem palavra.

Visão de conjunto

A canção fala com um “você” do começo ao fim. Nenhum dos 54 versos se dirige a Deus, e nenhum conta algo que Deus tenha feito, tirando as quatro repetições da linha 14. O gênero é a exortação, e a rubrica não tem nada contra isso: Colossenses 3:16 manda a igreja ensinar e admoestar a si mesma cantando. O que decide é o conteúdo da exortação, e aqui ele é a capacidade de quem escuta.

A contagem ajuda a ver o desenho. Contra as quatro ocorrências da palavra “Deus”, sempre no mesmo verso do coro, estão vinte e seis pronomes de segunda pessoa e de “nós”. Os verbos confirmam: Deus dá asas, e é só; o ouvinte acredita, vence, toca o céu, constrói, escala, conquista, voa, quebra recordes e ultrapassa barreiras. A partir da linha 18 a própria fé vira sujeito da frase — ela faz imbatível e mostra o valor.

E é aí que está o problema maior. A palavra fé aparece seis vezes e em nenhuma delas a letra diz em quem se crê. Uma fé assim funciona como energia disponível: quanto mais se tem, mais se vence. A fé de que a Bíblia fala se define pelo seu objeto — Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Romanos 4:3) —, e a lista de Hebreus 11 termina com gente que teve essa fé e morreu sem receber a promessa. Prometer invencibilidade a quem crê, como faz a linha 18, é prometer aquilo que a Escritura não promete.

As linhas 14 e 15 completam o quadro. Deus dá asas, e o voo é teu. Deus entra como quem habilita, e quem canta ocupa o lugar de quem realiza. Some-se a linha 19, que faz do resultado alcançado a medida do valor de uma pessoa, e o conjunto atende a dois itens da lista de alertas: vitória como consequência garantida da fé, e o louvor virando autoafirmação.

Vale registrar o que a letra faz bem. A linha 7 é honesta ao dizer que ninguém nasceu com jeito pra super-herói, e a forma é simples, curta e fácil de decorar — o que explica vinte anos de popularidade. A linha 8 desfaz a linha 7 na frase seguinte, devolvendo a construção dos sonhos a quem canta.

Para quem escolhe louvores

Falta a esta letra exatamente aquilo que ela mais promete ter: um alvo para a fé que ela pede. Sem esse alvo, o que sobra é um encorajamento sincero em que Deus comparece uma vez, para autorizar o voo.

O que a igreja perde ao cantá-la merece atenção. Canção repetida ensina, e três domingos bastam para decorar esta. O que ela ensina é que a força está dentro de quem canta, que a fé garante o resultado e que o valor de uma pessoa se mede pelo que ela conquista. Quem passa por um desfecho ruim depois de anos cantando isso fica com a suspeita de que faltou fé.

Para os mesmos momentos em que ela costuma entrar — encorajamento, perseverança, a igreja diante de algo grande demais —, há canções que dizem em quem se crê. O Salmo 46 e o Salmo 121 tratam de socorro na angústia sem prometer invencibilidade a ninguém, e “Castelo Forte” canta a mesma coragem com o nome de Cristo dentro da letra. A diferença prática aparece no domingo em que a batalha não foi vencida.

Nada disso julga quem escreveu a canção nem quem a cantou nesses vinte anos. Descreve o que os versos dizem, e o que eles deixam de dizer.

Referências bíblicas

  • João 15:5tema
  • Filipenses 2:13tema
  • Tiago 4:13-15tema
  • Salmos 127:1tema
  • 2 Coríntios 10:4-5alusão
  • Mateus 19:26alusão
  • Isaías 40:31alusão
  • Hebreus 11:36-39tema
  • 1 Pedro 1:18-19tema

Pontos de atenção

  • A linha 3 põe a força dentro de quem ouve; cantada em conjunto, ela ensina autossuficiência onde João 15:5 ensina dependência.
  • As linhas 18–19 fazem da fé a garantia de não perder e a medida do valor de quem crê; a palavra fé aparece seis vezes na letra e nenhum verso diz em quem se crê.
  • Deus só age na linha 14, repetida em 29, 40 e 48, e o que Ele faz é viabilizar o voo do ouvinte; Jesus não é nomeado em nenhum dos 54 versos.
  • A linha 11 usa o impossível no sentido inverso de Mateus 19:26, onde o impossível aos homens é o que só Deus realiza.
  • A linha 10 toma as fortalezas de 2 Coríntios 10:4-5, que ali são raciocínios derrubados por armas não carnais, e as transforma em obstáculos vencidos por esforço.
  • A ambiguidade da linha 3 costuma ser preenchida de fora: análises devocionais publicadas leem ali a presença de Cristo no crente, e nenhum verso da canção diz isso. Vale decidir se o artigo comenta essa leitura.